Masoquismo prazeroso
5 estrellas
( sol2070.in/2026/03/memorias-subsolo-dostoievsky/ )
No clássico Memórias do Subsolo (1864, 184 pgs), o russo Dostoivévski satiriza a figura do intelectual racional idealizada na época. Surpreende por permanecer atual, com um frescor moderno até.
O anti-herói continuamente desafia a ideia de que as pessoas conseguiriam realizar o próprio bem (e da sociedade) simplesmente ao desejarem e planejarem isso racionalmente. Tenta explicar isso com a filosofia a que chegou no monólogo de abertura, uma autoapresentação da personagem, e exemplifica com a comédia de erros que é sua vida, na segunda parte.
O narrador se perde tanto em seus compulsivos trens de pensamento que fica paralisado de neurose, bloqueando o tempo todo a própria realização — social, profissional e romântica. Mas pode sempre se autojustificar em contorcionismos intelectuais mirabolantes.
É moderno na ambiguidade: ao mesmo tempo que desperta simpatia pela rebeldia aos valores predominantes e normas sociais, e pelas dificuldades …
( sol2070.in/2026/03/memorias-subsolo-dostoievsky/ )
No clássico Memórias do Subsolo (1864, 184 pgs), o russo Dostoivévski satiriza a figura do intelectual racional idealizada na época. Surpreende por permanecer atual, com um frescor moderno até.
O anti-herói continuamente desafia a ideia de que as pessoas conseguiriam realizar o próprio bem (e da sociedade) simplesmente ao desejarem e planejarem isso racionalmente. Tenta explicar isso com a filosofia a que chegou no monólogo de abertura, uma autoapresentação da personagem, e exemplifica com a comédia de erros que é sua vida, na segunda parte.
O narrador se perde tanto em seus compulsivos trens de pensamento que fica paralisado de neurose, bloqueando o tempo todo a própria realização — social, profissional e romântica. Mas pode sempre se autojustificar em contorcionismos intelectuais mirabolantes.
É moderno na ambiguidade: ao mesmo tempo que desperta simpatia pela rebeldia aos valores predominantes e normas sociais, e pelas dificuldades vividas, provoca aversão na estupidez. É uma estupidez muito humana, de autossabotagem, racionalização dos erros, insegurança doentia, o que no fim gera de novo empatia.
O "subsolo" é o mundo que ele diz habitar, sendo basicamente o fundo do poço, também ambíguo. Pois não falta ali o prazeroso masoquismo dostoievskiano, o êxtase na degeneração e queda. Como em outras personagens de seus romances, há regozijo na humilhação e no sofrimento.
Esse é um sentimento que sempre me intrigou ao ler o autor. Em Crime e Castigo, por exemplo, aparece Marmeladov, um alcoólatra que gasta o dinheiro que a família miserável não tem e é espancado e arrastado pelos cabelos pela mulher ao chegar em casa após dias de maratona etílica. Apesar de tudo, ele ama a humilhação. É como se chegasse ao ápice invertido da existência. Invertido, mas mesmo assim um ápice, uma essência, o ponto extremo, o fim da jornada. Quase conseguimos sentir esse bizarro coroamento emotivo.
Levando em conta a vida do escritor, ele devia conhecer esse sentimento muito bem.
Também estão ali as outras emoções afloradas e explosivas, minuciosamente comentadas e explicadas, que marcam o russo de forma negativa, conforme seus detratores, ou de modo extremamente envolvente, para quem aprecia. Estou no segundo grupo.
É uma ótima introdução à obra do autor, apesar de abertamente satírica, tanto pela brevidade quanto pela autoexplicação. O próprio narrador ao final explica as ambiguidades do livro, a intenção de não mascarar a predominância repulsiva. Mesmo assim, para quem lê, termina havendo identificação.
Excelente tradução de Rubens Figueiredo para a edição da Penguin Clássicos.
Li no clube de leitura Contracapa, onde foi outra unanimidade.