Vira-página sci-fi literário
4 estrellas
( sol2070.in/2026/05/o-que-podemos-saber-ian-mcewan/ )
O consagrado autor inglês Ian McEwan usa como cenário o colapso socioambiental em O Que Podemos Saber (What We Can Know, 2025, 384 pgs), seu 18º romance. McEwan é considerado um dos maiores autores ingleses vivos, e a crítica acolheu o livro como um de seus melhores.
Um século no futuro, em uma sociedade inglesa ilhada entre conflitos e as trágicas consequências do "Desarranjo" — o conjunto de crises associadas à emergência climática que enterrou a civilização como era conhecida, reduzindo a população mundial a menos da metade —, um professor pesquisa sobre um lendário poema perdido de um dos maiores poetas que viveram entre os séculos 20 e 21. Escrito em 2014, diz a lenda, o poema teria catalisado o sentimento de iminente colapso natural que pairava, sendo uma obra-prima em louvor ao amor e a natureza.
A estória alterna entre …
( sol2070.in/2026/05/o-que-podemos-saber-ian-mcewan/ )
O consagrado autor inglês Ian McEwan usa como cenário o colapso socioambiental em O Que Podemos Saber (What We Can Know, 2025, 384 pgs), seu 18º romance. McEwan é considerado um dos maiores autores ingleses vivos, e a crítica acolheu o livro como um de seus melhores.
Um século no futuro, em uma sociedade inglesa ilhada entre conflitos e as trágicas consequências do "Desarranjo" — o conjunto de crises associadas à emergência climática que enterrou a civilização como era conhecida, reduzindo a população mundial a menos da metade —, um professor pesquisa sobre um lendário poema perdido de um dos maiores poetas que viveram entre os séculos 20 e 21. Escrito em 2014, diz a lenda, o poema teria catalisado o sentimento de iminente colapso natural que pairava, sendo uma obra-prima em louvor ao amor e a natureza.
A estória alterna entre o cotidiano pós-apocalíptico, com as dificuldades do pesquisador e sua esposa, também no relacionamento, e a reconstrução documental do passado, que na verdade é o nosso presente. Aqui também, além do poema, muito gira em torno do relacionamento do poeta e sua mulher. Essa é a primeira parte.
Na segunda, há uma reviravolta que troca bastante o foco, sem perder a conexão com a busca desse tesouro lírico.
Foi meu primeiro Ian McEwan, autor que queria ler há décadas. No início, decepcionou um pouco pelo futuro imaginado. Achei conservador, porque é um mundo pouco diferente de hoje, apesar do grande colapso. Há sim diferenças significativas, como um novo sistema de governo, pelo menos na Inglaterra, baseado não em pessoas governantes, mas em comitês cidadãos (que, contudo, ainda são manipulados pela elite que sobrevive em enclaves); ou então, a maior dificuldade de viagens internacionais pelo aumento nos conflitos. Fora toda a degradação natural.
Mas isso tudo parece acessório. O cotidiano não parece ter mudado muito. Talvez, involuntariamente, passe a ideia de que não há muito o que se preocupar porque, no final, pouco vai mudar essencialmente.
Sobre esse romance, o autor disse que é importante uma visão de futuro esperançosa, que uma das causas de um possível colapso geral será a morte da esperança. Provavelmente, veio daí sua imaginação distópica que consegue manter quase tudo mais ou menos na mesma. Pessoalmente, vi pouca esperança nesse futuro, já que tudo muda pouco, ou seja, no fundo continua uma prisão. Aprende-se pouco mesmo com a catástrofe generalizada.
Um exemplo mais palpável: nesse futuro, redes sociais e "IA" são bens públicos, controlados pelo governo. Fica uma sugestão de que, caso fizéssemos isso hoje, boa parte dos problemas estariam resolvidos — ingenuidade que chega a ser cômica.
Outra decepção foi o protagonista intelectual, em sua busca de conhecimento e estética elevadas, com sua refinada percepção artística. É o personagem-padrão de boa parte dos escritores aclamados brancos, homens e privilegiados. Não que seja impossível sair algo bom daí, mas essa bolha cansa. E a figura central persistiu mesmo num mundo pós-apocalíptico — contudo, o personagem e seu mundo são bastante críveis e envolventes, admito.
Mesmo com essas ressalvas, estava sendo uma experiência bem acima da média dos romances pós-apocalípticos. Há um realismo muito bem arquitetado, que mergulha sensorialmente quem lê nesse universo.
Então, veio a parte 2, que revira tudo. O título do livro resume uma pergunta: o que um biógrafo ou historiador pode de fato saber, ao coletar e tentar extrair sentido das informações fragmentadas do passado? Termina havendo muita projeção e a verdade pode ser radicalmente outra.
Não vou espoliar, mas a metade final elevou muito minha opinião sobre o romance. Como disse, no todo, a emergência climática entra mais como um cenário. A parte mais viva e humana é sobre outra coisa, mais individualizada, de questionamentos morais, sem deixar de se conectar com toda essa realidade maior.
É uma ficção-científica que consegue ser ao mesmo tempo literária e um vira-páginas compulsivo, especialmente na segunda parte. Apesar de haver duas metades (na verdade 60/40%) muito diferentes, a segunda só se torna extremamente envolvente devido às indicações e pistas plantadas na primeira — uma das muitas manobras de mestre do escritor.
Li no clube Contracapa.