Horror complexo
5 estrellas
( sol2070.in/2026/05/coracao-das-trevas-joseph-conrad-apocalypse-now/ )
Há tempos queria reler o clássico Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899, 184 pgs), pela prosa superlativa de Joseph Conrad e pelo retrato da insanidade maníaca descomunal. Foi mais complicado que imaginava.
A estória se desdobra a partir da narração subjetiva do marinheiro Marlow, contando oralmente sua jornada nas selvas congolesas em busca de Kurtz, um colonialista exímio em extrair lucros destrutivos.
É um romance considerado modernista por vários motivos, como a narração fragmentada, não linear e não confiável do protagonista, manchada de exageros e preconceitos. Não é fácil ler uma estória inteiramente sob esse ponto de vista, que chega a ser repulsivo no racismo. Contudo, a estória se amplia com o passo para trás que possibilita o reconhecimento de que o narrador integra a ignorância e brutalidade colonialistas do cenário.
Ainda em 1975, o consagrado romancista nigeriano Chinua Achebe …
( sol2070.in/2026/05/coracao-das-trevas-joseph-conrad-apocalypse-now/ )
Há tempos queria reler o clássico Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899, 184 pgs), pela prosa superlativa de Joseph Conrad e pelo retrato da insanidade maníaca descomunal. Foi mais complicado que imaginava.
A estória se desdobra a partir da narração subjetiva do marinheiro Marlow, contando oralmente sua jornada nas selvas congolesas em busca de Kurtz, um colonialista exímio em extrair lucros destrutivos.
É um romance considerado modernista por vários motivos, como a narração fragmentada, não linear e não confiável do protagonista, manchada de exageros e preconceitos. Não é fácil ler uma estória inteiramente sob esse ponto de vista, que chega a ser repulsivo no racismo. Contudo, a estória se amplia com o passo para trás que possibilita o reconhecimento de que o narrador integra a ignorância e brutalidade colonialistas do cenário.
Ainda em 1975, o consagrado romancista nigeriano Chinua Achebe sugeriu a retirada de Coração das Trevas do cânone literário ocidental pelo racismo retratado. Inteirei-me da discussão porque estava tendo dificuldade em prosseguir. Terminei concordando com o autor desse ensaio na New Yorker. O fato de o protagonista ser racista faz muito mais sentido do que o oposto. Não seria crível alguém como ele não ser. Fica bastante óbvio o tipo de pessoa que é, por exemplo, por sua grande admiração inicial pelos feitos exploratórios de Kurtz.
Conrad trabalhou no Congo e se horrorizou com a devastação colonialista. Contudo, ainda poderia ser acusado de não ter a mesma consciência sensível de hoje com povos explorados, ao optar em retratar as pessoas congolesas apenas na perspectiva de seu protagonista racista. Talvez seja exigir demais de um autor europeu escrevendo no século 19?
Voltando à estória, ao adentrar os confins rio abaixo onde Kurtz se esconde, Marlow vai descobrindo a insanidade assassina do explorador, passando a vê-lo como alguém que ultrapassou até mesmo os seus limites da vileza humana, mais baixos que o normal.
A atmosfera de horror impressionista evocada é marcante, mas terminei com um pé atrás aí, porque ela é muito íntima da ótica distorcida e supremacista do narrador. Senti até um paralelo com o horror insólito de H.P. Lovecraft: é criada uma visão infernal fascinante, transcendental, que, na verdade, é inseparável de um olhar doentio. A diferença é que Lovecraft era sim racista. Já em Coração das Trevas, o narrador é, não o autor.
Coração das Trevas ganhou muita popularidade a partir de 1979, quando foi lançado o filme Apocalypse Now, em que Coppola recria e transpõe a estória para a Guerra do Vietnã.
Revi recentemente e foi tão marcante que parti direto para o livro. Tinha lido na adolescência após ver o filme, mas nem contam. Tanto o filme quanto o romance, agora, pareceram primeira vez. Comento o filme abaixo. ( sol2070.in/2026/05/coracao-das-trevas-joseph-conrad-apocalypse-now/ )
O romance é mais curto do que as 184 páginas da edição de bolso da Companhia das Letras (com ótima tradução de Sergio Flaksman) sugerem, já que inclui um conto relacionado de Conrad, e um artigo sobre o contexto histórico da exploração no Congo.